Avaliando fatos e mitos sobre violência armada e doenças mentais após ato terrorista em Parkland

Um jovem altamente armado é acusado de matar 17 pessoas após atirar em estudantes e professores aterrorizados no Colégio Marjory Stenaman Douglas em Parkland – Florida, na quarta-feira.  Foi o terceiro tiroteio nos últimos quatro meses nos Estados Unidos.

Nikolas Cruz, que foi ligado com um histórico de doença mental, é acusado de ter usado no ato terrorista uma AR-15 obtida legalmente. O ataque levou à disseminação de conversas sobre o vinculo entre violência armada e doença mental e como legisladores e grupos de interesse estão debatendo sobre potencial respostas policiais. Abaixo está uma analise de alguns fatos e mitos ditos pelos oradores Paul D. Ryan, Republicado de Wisconsin; Senador Bernie Sanders, independente do Vermot; e outros no despertar do tiroteio da quarta-feira.

"A saúde mental é muitas vezes um grande problema oculto a essas tragédias". - Presidente da Câmara, Paul Ryan.

Há uma conexão, mas é mais limitado do que o pensamento geral.

A afirmação do Mr.Ryan reflete um equivoco comum. De acordo com várias enquetes, aproximadamente a metade dos americanos acredita que não identificar pessoas com problemas mentais é uma das causas primarias para violência armada ou então que associar problemas mentais seria um grande impedimento.

Essa conclusão não é compartilhada por especialistas ou pesquisas amplamente aceitas.

Em uma análise de 235 assassinatos em massa, muitos dos quais foram realizados com armas de fogo, 22 por cento dos criminosos poderiam ser considerados doentes mentais.

No geral, tiroteios cometidos por pessoas com sérios problemas mentais representam 1 por centro de todos os homicídios armados cometidos anualmente, de acordo com o livro “Gun Violence and Mental Illness” publicado pela associação psiquiátrica em 2016.

Para ter certeza, especialistas em violência armada contatados por repórteres do New York Times disseram que proibir vendas às pessoas portadoras de doenças mentais consideradas perigosas poderia ajudar a prevenir tiroteios. Mas os especialistas disseram que diversas outras medidas - incluindo a proibição de armas de assalto e a proibição de vendas para criminosos violentos condenados - são mais efetivas.

E, como The Times relatou, os americanos não parecem ter mais problemas de saúde mental do que outras nações desenvolvidas de um tamanho comparável, que experimentam muito menos tiroteios em massa.

Algumas pesquisas adicionais:

  • Um estudo acadêmico de 2016 estimou que apenas 4% da violência está associada a apenas doenças mentais graves. "A evidência é clara de que a grande maioria das pessoas com transtornos mentais não se envolvem em violência contra outros e que o comportamento mais violento é devido a outros fatores que não a doença mental", concluiu o estudo.
  • Um estudo de 2015 descobriu que menos de 5% dos assassinatos relacionados a armas nos Estados Unidos entre 2001 e 2010 foram cometidos por pessoas diagnosticadas com doença mental.

Como John T. Monahan, professor especializado em psicologia e direito da Universidade da Virgínia, disse ao The Times:

“Duas coisas típicas acontecem no despertar de um tiroteio. Primeiro políticos afirmam que a doença mental é a maior causa de violência na America. Depois, defensores de pessoas com problemas mentais respondem negando que há qualquer relação de qualquer natureza entre doença mental e violência. Ambos os grupos estão errados. Pesquisas mostram que a ligação entre doença mental e violência não é forte, mas ela existe.”

"Após 18 tiroteios na América em apenas 43 dias de 2018, o Congresso pode querer considerar o senso comum da legislação de segurança de armas e salvar vidas inocentes". - Senador Bernie Sanders.

Falso. Houve 18 casos de armas sendo descarregadas. Não seria justo chamar todos de tiroteios.

A figura é extraída de uma lista mantida pelo grupo de defesa Every Town for Gun Safety. Como o grupo explica em seu site, o total inclui "sempre que uma arma de fogo descarrega uma rodada ao vivo dentro de um prédio escolar ou em um campus ou terreno da escola".

Como o Washington Post, o Washington Examiner e outras lojas apontaram, isso inclui alguns incidentes que a maioria das pessoas não considerariam como tiroteios escolares. Por exemplo, a lista inclui suicídios, como o homem da Florida que atirou em si mesmo no estacionamento de um colégio enquanto este estava fechado. E também inclui acidentes como o de um aluno da terceira série em Michigan que puxou o gatilho de uma pistola policial, não ferindo ninguém.

"Israel praticamente eliminou [tiroteios] colocando pessoas altamente treinadas estrategicamente para detectar a ameaça comum - não a arma, mas uma pessoa com intenção". - Ex-governador do Arkansas, Mike Huckabee.

Esta é uma interpretação que os israelenses rejeitam.

Funcionários e especialistas israelenses rejeitaram esta versão dos eventos depois de uma afirmação semelhante ter sido feita por Wayne LaPierre, presidente da National Rifle Association, após o tiroteio de 2012 na Sandy Hook Elementary School em Newtown, Connecticut, no qual 20 crianças e seis adultos foram morto.

"Israel teve uma série de tiroteios escolares até que eles fizeram uma coisa. Eles disseram: "Vamos parar", e eles colocaram segurança armada em todas as escolas, e eles não tiveram um problema desde então", disse o Sr. LaPierre em dezembro de 2012 na NBC.

Yigal Palmor, um porta-voz do Israeli Foreign Ministry, na época disse ao  The New York Daily News que a situação nos Estados Unidos e Israel eram “fundamentalmente diferentes” e disse que a medida que Israel promulgou foi uma resposta ao terrorismo.

“O que removeu o perigo não foram os guardas armados, mas uma política antiterrorista geral e operações antiterroristas, que trouxe o terrorismo de rua para quase zero ao longo de vários anos,” disse Mr. Palmor.

"Seu primeiro ato como presidente, Sr. Trump, foi na verdade reverter os regulamentos que foram projetados para manter as armas de fogo fora das mãos dos doentes mentais". - Jimmy Kimmel, anfitrião da noite.

É verdade, mas a competência da regra era acanhada.

Depois que o Sr. Trump concentrou-se na saúde mental em seu discurso nacional na quinta-feira em resposta ao tiroteio de Parkland, muitos jornalistas, ativistas e outros, como o Sr. Kimmel, notaram a revogação de uma regra que teria impedido pessoas "gravemente doentes" de comprarem armas.

A lei federal já impede que qualquer um que "tenha sido julgado como deficiente mental ou tenha sido comprometido com qualquer instituição mental" de comprar uma arma. E a maioria dos estados tem leis que exigem que eles relatem informações de saúde mental para o sistema nacional de verificação de antecedentes. Mas as lacunas no sistema ainda existem.

Após o tiroteio de Newtown, o presidente Obama propôs adicionar outra fonte de dados ao sistema de verificação de antecedentes: relatórios da Administração da Segurança Social de pessoas que recebem benefícios de invalidez através de terceiros por causa de deficiências mentais. De acordo com uma ficha informativa da Casa Branca de 2016, a regra teria atingido 75 mil pessoas.

Foi contra a Associação Nacional de Rifle, mas também da União Americana de Liberdades Civis, que afirmou que a regra violou os direitos civis. Alguns grupos de direitos de deficiência também argumentaram contra a regra com base em que perpetuava estigmas sobre doenças mentais.

O Sr. Trump assinou uma resolução do Congresso que expressou a desaprovação da regra proposta em fevereiro de 2017, nove meses antes de o cumprimento ter sido necessário.

 

Fonte: Nytimes

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