Mateus 1:1

"Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão"

O evangelho segundo Mateus começa com o registro da genealogia de Jesus, a partir de Abraão.

Mas qual seria o objetivo de tal registro, considerando que Jesus, visto sob a ótica estritamente espiritual, não é descendente de Abraão e nem de qualquer das pessoas citadas nesta genealogia?

Mesmo considerando o aspecto puramente genético da questão, que é para onde o versículo aponta, não há fundamento, considerando que também não há qualquer relação de parentesco entre Jesus e Abraão ou Davi. O nome que vincula Jesus a eles é o de José que, como sabemos, não é o pai biológico de Jesus e sendo assim, não há qualquer vestígio do seu DNA e, em consequência, de qualquer de seus ascendentes, em Jesus Cristo.

O forte tradicionalismo judeu seria a única justificativa plausível para o registro desta genealogia. Mas tradicionalismos desta natureza tem origem exclusivamente na vaidade humana, sendo incompatível com a natureza espiritual de Deus. Sendo assim, temos aqui o exemplo de um texto introduzido na Bíblia conforme conveniências estritamente humanas, sem qualquer tipo de respaldo divino. 

É um costume ainda presente nos dias atuais avaliar-se alguém por sua ascendência ou pelo nome de família. Mas sabemos que tal postura é, na melhor das hipóteses, preconceituosa, já que o nome de família, embora possa exercer alguma influência, na verdade não define o caráter de ninguém, o que é demonstrado dentro da própria Bíblia, em diversos casos, como o de Abaslão e outros filhos de Davi e Salomão, cujas índoles em nada refletiam as de seus pais.

Ao mesmo tempo, o próprio Jesus desqualifica qualquer tipo de vantagem fundamentada em ascendências genealógicas ou familiares, confirmando a tese de que o valor de qualquer pessoa é baseado em seus próprios atos e não em vínculos familiares de ascendência ou descendência.  "...minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a praticam".(Lucas 8:21)

Também João Batista, de forma direta e precisa, exorta o povo a abandornar o apego ao tradicionalismo familiar quando diz: "...eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.", mostrando que o mero vínculo de descendência, genético ou não, nada significa espiritualmente.

Um número considerável de teólogos tem analisado esta genealogia como se Jesus tivesse que se adaptar a ela. Em outras palavras, estabelecem os vínculos de ascendência de Cristo, ligando-o ao Rei Davi e a Abraão, como fator de legitimação de sua obra e de seu papel como o Messias, sugerindo que, sem tais vínculos,  sua autoridade espiritual estaria em dúvida. R. N. Champlin, autor do Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, obra que respeito e utilizo como fonte bibliográfica, chega a afirmar que "os judeus não aceitariam um Messias que não fosse da descendência real de Davi." Mesmo assim, os judeus não o aceitaram. Discordo desta interpretação, uma vez que expressam anseios e costumes de um povo em particular, além de um forte apego a tradicionalismos e cerimonialismos. O principal motivo para a crucificação de Cristo foi exatamente sua forte oposição ao tradicionalismo religioso que reinava entre os judeus e reina até hoje em praticamente todas as organizações eclesiásticas.

Ao meu ver, esta genealogia pouco ou quase nada acrescenta à obra e ao ensino de Cristo, tendo sido inserida nos evangelhos para satisfazer interesses humanos. É importante mencionar que há divergências entre as genealogias apresentadas por Mateus e por Lucas. Ou seja, sua confiabilidade fica comprometida.

Finalizando os comentários a este versículo, entendo que a apresentação da genealogia de Jesus, da forma como foi feita, é uma tentativa de conferir a Jesus uma espécie de legitimação, vinculando-o à Abraão e Davi, como filho destes, confirmando toda a tradição e ensino a eles associados. Trata-se de um exercício desnecessário, pois Jesus nunca precisou disto. E mesmo que precisasse, o mero vinculo familiar, mesmo que distante, como dissemos anteriormente, não constitui razão suficiente para definir o valor ou o caráter de quem quer que seja. Portanto, não faz diferença.

Mas, se deveria constar uma genealogia, pelo menos a título de homenagem, seria muito mais apropriado incluir a genealogia de Maria. Porém,  trata-se de uma mulher. É impressionante como o povo cristão aceita tão naturalmente a postura preconceituosa da Bíblia em relação às mulheres. Como poderia um Deus de sabedoria infinita promover tal prática? Sob uma ótica espiritual tal discriminação é absolutamente inconcebível. A única explicação plausível é a de que tal doutrina não procede de Deus, mas foi introduzida na Bíblia por conveniências meramente políticas.

Mas quer concordemos, quer não, a genealogia ai está. Confesso que a li pouquíssimas vezes. Afiinal tudo o que temos é um sequência de nomes, a maioria dos quais desconhecidos pela maioria dos leitores da Bíblia. 

Assim, visando enriquecer o tema, nos próximos comentários, passo a apresentar um breve resumo da vida das pessoas mencionadas, citando seus principais feitos, bem como indicando sua eventual relação com a vida de Jesus Cristo.

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