Conheça o instrutor de boxe que está mudando a vida dos moradores de rua de São Paulo.

Uma das questões mais persistentes em São Paulo é o uso do espaço, tanto público quanto privado. Em todo o Brasil, 6,2 milhões de famílias estão desabrigadas, embora haja sete milhões de propriedades vazias e sem uso. Na maior cidade do país, essa disparidade é ampliada e São Paulo tem um problema habitacional muito visível. As condições precárias nas ruas muitas vezes levam os cidadãos sem-teto de São Paulo ao vício em drogas ou ao crime.

 

Ao longo dos anos, os espaços sob as pontes e vias expressas da cidade foram usados ​​como abrigo por moradores de rua ou, em alguns casos, como esconderijos de drogas. Esses espaços são deixados para decair, esquecidos pelas autoridades públicas.

Sob a ponte Alcântara Machado, no entanto, as coisas são um pouco diferentes. Ao se aproximar da área, na região central do Brás e em uma das estradas mais importantes de São Paulo ligando o centro ao leste mega-populoso, a ponte não parece diferente de qualquer outra na cidade. O concreto está decaindo gradualmente, há pilhas de lixo despejado ilegalmente pelos transeuntes e as casas e empresas próximas estão cobertas de pichações.

Quando você desce ao nível do solo, as coisas mudam. Atrás de uma cerca de arame de aço, pessoas de todas as idades e estilos de vida - algumas em roupas sujas e velhas, outras em roupas de ginástica caras - estão batendo em sacos de pancada, pulando corda e levantando pesos.  Bem-vindo ao ginásio de boxe do Garrido, um dos projetos sociais mais exclusivos de São Paulo.

Inaugurado em 1998 pelo ex boxeador, Nilson Garrido, agora com 61 anos, o Garrido Boxe é uma academia de boxe que está aberta ao público, particularmente as populações desabrigadas e pobres da área ao redor do Brás. Desde a sua criação, Garrido Boxe tem sido um lugar onde todos são bem-vindos, oferecendo às pessoas desfavorecidas um lugar para se manter em forma e manter indivíduos potencialmente vulneráveis ​​fora da rua.

No início, o equipamento de ginástica de Garrido era composto inteiramente de materiais reciclados e de sucata, que ainda estão lá hoje. O projeto gradualmente se tornou mais e mais famoso. "Na época, havia muita atenção da imprensa, falando sobre esse 'homem louco debaixo da ponte' que estava fazendo algo diferente", lembra Garrido. “Quando a imprensa me deu esse apelido e escreveu grandes histórias sobre mim, a sociedade em geral começou a reconhecer isso como uma nova maneira de fazer algo para ajudar as pessoas. Eles começaram a vir aqui e doar material, equipamento, livros”.

Foi nesse ponto que, como Garrido destaca, seu esforço deixou de ser apenas uma academia de boxe e se tornou um projeto social de pleno direito.

Garrido Boxe funciona da seguinte maneira: qualquer um pode vir e treinar aqui, independentemente de idade, etnia, gênero ou classe social. As instalações são livres para usar, exceto para os freqüentadores de ginástica que estão em pleno emprego, que são convidados a fazer uma pequena contribuição mensal.

O próprio Garrido mora debaixo da ponte no final do ginásio, em uma casa que ele construiu para si décadas atrás. Ele recruta pessoas da rua para ajudá-lo no dia-a-dia do projeto em troca de hospedagem e alimentação. Este é o caso de Guto, que trabalha com Garrido há vários meses e cumprimentou nossa equipe de reportagem no dia de nossa visita.

Além da academia de boxe, uma das partes mais importantes do projeto é a vasta biblioteca de livros doados, que são gratuitos para as pessoas lerem e emprestarem. Como explica Guto, “pessoas sem-teto não conseguem cartões de biblioteca porque não têm um endereço fixo; muitas vezes nem sequer são permitidos na porta da frente. ”Ele nos conta que aprendeu a ler usando os livros da Garrido Boxe.

"Aqui temos orgulho em dizer que reciclamos seres humanos", diz Garrido. “No Brasil há muitos projetos para reciclar latas, todo tipo de lixo, mas ninguém fala em reciclar humanos, que são abandonados nas ruas.”

Reorientar o espaço sob as pontes de São Paulo faz parte da grande visão de Nilson Garrido para a cidade, em face do desaparecimento de parques públicos e campos de futebol. “No Brasil, as pessoas só veem pontes de cima, não olham por baixo, onde você tem favelas e pessoas que vivem em condições precárias”, explica ele. “O que estamos fazendo aqui é uma revolução, para que um dia seja o futuro de todas as pontes [em São Paulo e no Brasil]”.

Fonte:theculturetrip.

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